HOJE EU RECEBI UMA ENCOMENDA, MAS AINDA NÃO FUI BUSCAR

A pesquisa “Hoje eu recebi uma encomenda, mas ainda não fui buscar” procura questionar a estrutura social verticalizada em que estamos inseridos. 

Esses trabalhos surgiram durante a pandemia, e são compostos, principalmente, de fragmentos de caixas postais que recebi durante o isolamento. Infelizmente, essas encomendas que garantiram o meu conforto e segurança, foram produzidas às custas da precarização da mão de obra que atinge a maior parte da população.

Preguiçosamente acordo e olho pela janela. Através dela tudo parece tão pequeno. Demoro para me lembrar da angústia que me dominava toda vez que era necessário sair de casa. Conforme meus anseios se despertam, as coisas voltam a se agigantar. Mesmo depois de 232 dias em confinamento, meu primeiro pensamento é: "ainda bem que hoje eu não preciso sair”.
A ironia serve de presságio e soa como uma ameaça: percebo que as minhas neuroses se alinharam com a tragédia. Eu que desejei em vão ver o mundo parar, agora me reconheço como parte de um pequeno grupo que permanece em isolamento, e por isso me sinto culpado. Afinal, apesar de isolado, continuo a receber o mundo em meu apartamento, mesmo que fragmentado, de encomenda em encomenda.
Os dias se confundem, 232 deles e já não sei se sou refém da minha ansiedade ou dos meus privilégios. Quantos mais devem faltar? O pior é que eu nem vi o tempo passar… Não me leve a mal, eu até quero um dia sair pra sentir o cheiro do mar, só não hoje. Hoje eu devo esperar para ver o que vai virar quando isso tudo acabar, enquanto olho pela janela do vigésimo terceiro andar.